Evelina de Frances Burney

Posso respirar?

Até então, eu estava em uma rotina severa de estudos. Terminei a faculdade, passei na prova da OAB (fiz de Direito) e logo de cara arrumei um emprego/bico que atualmente está me fazendo suar sangue, o que me justifica a ausência de publicações, mas meio sem querer querendo me dei o desfrute de devorar, literalmente, minha mais nova aquisição:

20140930_152155

Evelina, 387 páginas, ilustrado

E com isso eu venho vos apresentar a linda senhorita Evelina.

Há alguns posts atrás declarei minha aversão aos romances literários de hoje, há, claro, suas exceções, mas com o termino dessa obra de  1778 pude mais ainda firma o entendimento que não se fazem mais estórias como antigamente, onde a boa palavra, o texto, a escrita, seus personagens e contexto nos fazem sair para um outro mundo e saber que escrever, de fato, não é para qualquer um! eu que o diga :/

Depois de fortes recomendações, e da própria autora ser conhecida como de grande influência para Jane Austen, fui impelida e comovida a adquirir a obra, desconhecia no nosso país, pela Editora Pedra Azul, novíssima no mercado e com a fofa e linda intenção de trazer a tona esses clássicos de outro tempo que foram esquecidos diante de um mercado tão faminto por conquistar e vender qualquer coisa superficial, pois o que importa é o dinheiro. Enfim, comprei o livro e parece que minha mente foi acordada da ausência de boa leitura (e, aqui peço desculpas aos leitores, poucos, desse blog se pareço arrogante diante de minhas comparações, não é minha intenção, mas espero que entendam que trata-se de uma opinião) e assim passo as considerações do livro.

Evelina, título e personagem deste livro, é uma desconhecida hoje. A garota que até aos 17 anos tem uma vida livre e pacata, sem maiores problemas, no interior da Inglaterra,  é recatada, pura, tímida e dona de virtudes e beleza incomparáveis. Entendam, ela não existe mais hoje, e mesmo na época em que a estória se passa, percebemos o quão a sua figura é admirada e adorada justamente por tais qualidades que se naquele momento já não eram vistos nas damas da sociedade, imaginem hoje!

O texto todo me lembrou muito ” A Abadia de Northanger” de Jane Austen, publicado bem depois, pois em ambas as obras temos as aventuras que uma jovem dama passa ao entrar na sociedade inglesa da época ( sendo justamente este o subtítulo de Evelina: A história da entrada de uma jovem dama ao mundo). As duas nesse caso, cresceram em um interior rural e, sendo inocentes do que se passa nas altas rodas de Londres, passam por maus bocados diante de pretendentes interesseiros e tutores descuidados, a diferença está, no entanto, no fato que em Evelina, a história adiciona um mistério e um complicado enlace acerca da família da heroína, já que seu pai, um influente homem que vive na França não a quer reconhecê-la como filha e na obra de Austen temos as confusões que Catarina se mete por conta de sua imaginação fértil.

No mais, nas duas encontramos o estilo de distorcer as relações da sociedade que se encontravam, a vida doméstica é o centro de tudo ali. Os bailes, as obras, os passeios na fonte (sempre riu desses passeios, principalmente ao lembrar das cenas do filme de “Persuasão”), temos os personagens apatetados que acham muito de si mesmos por terem algum título, aqui destaco o Sir Clement, que me dava nos nervos as investidas dele em Evelina, Madame Durval, uma megera e o Capitão, igualmente tolo. Há também aqueles personagens que queríamos que existissem, como o reverendo Villars, que cuidou e protegeu Eveline por toda sua infância e o próprio Lord Orville, o interesse amoroso da garota, sempre cortês, gentil e cavalheiro (algo raro, senão extinto, hoje em dia).

E Evelina, sendo a estranha que disse que era, no começo, me causava aflição o fato dela ser sempre tão desencorajada e facilmente levada pelos outros, mas fui me acostumando ao temperamento da moça, que à época, fui forçada a lembrar dentro do próprio texto, a honra de uma mulher é a coisa mais fácil de se quebrar e ela, sempre firme em suas proposições, nunca ofendendo ninguém, mas ao contrário, até com as piores pessoas ao redor, sempre se manteve digna e solicita a eles. Acabei gostando muito dela e, por que não, tirando algumas lições para a vida também?

Quanto ao romance, que é o que eu mais amo ler :D, ele desenvolveu daquela forma lenta e não violenta que as obras de Austen apresenta, não é amor a primeira vista, mais um desenvolver recíproco de amizade e gratidão.

E então, se minha capacidade, ou mesmo, se meus ânimos estivessem melhores, em que animada conversa eu poderia haver engajado! Foi quando vi  que a posição de Lord Orville era sua menor recomendação, seu entendimento e seus modos sendo muito mais distintos. Suas observações sobre a companhia em geral eram tão aptas, tão justas, tão vivazes, eu mesma estou quase surpresas que não tenham me reanimado; mas de fato, eu estava muito bem convencida do papel ridículo que eu havia desempenhado ante tão bom observador, para ser capaz de desfrutar de sua jovialidade. Tanta autocompaixão deu- me sentimentos por outros. Ainda assim eu não dispunha de coragem para defendê-los ou recobrar minhas forças, mas o ouvi em silencioso embaraço- pág. 35

Como o livro é escrito no formato de cartas, temos uma visão bem pessoal de Evelina na narrativa, o que facilita o entendimento da personalidade dela e de como vê o ambiente em sua volta. E com prazer, mesmo sendo leiga no assunto, percebi o cuidado da tradução em preservar certas expressões da épocas, mas que foram justificadas e devidamente explicadas nas notas de rodapé.

Óbvio, então, que eu amei o livro e me deleitei em cada parte e mesmo sendo uma estória simples, torci muito por um final feliz para a protagonista ( como eu sofri quando surgiu a ideia dela se casa com o horroroso primo!) e pelo desenrolar da sua aventura familiar (e como, hoje, nós temos que levantar as mãos para o céu pela existência do teste de DNA, alô programa do ratinho ;P ). Enfim, Eveline é um livre que vale a pena  se lê.

Desejo, de todo coração, que mais obras como esta sejam disponibilizados pela Pedra Azul Editora, que são uns fofos, pois mantém contato direto com o cliente e, atualmente, mantém frete grátis para todo o Brasil e cada livro ainda acompanha vários marca-páginas e broche com tema das obras 😀 já virei cliente!

E sabe aquela sensação de ótima compra? Pois é, fiquei com ela assim que terminei de lê!

Beijos e até a próxima!

Anúncios