As Crônicas de Gelo e Fogo, um caso de ódio e amor

Só para quem já leu A dança dos dragões….

Tudo começou como um desafio. Há alguns anos (não muitos), li uma matéria na veja online que absurdamente explicava as razões e os motivos de As crônicas de Gelo e Fogo ser melhor que O Senhor dos Anéis.

Quando li isso achei a maior afronta da história da literatura mundial, como, no mundo, alguém poderia afirmar que alguma obra fosse melhor do que a saga épica escrita por J. R. R. Tolkin? Para mim aquilo foi nada menos que uma blasfémia (e continua sendo, mas por outros motivos, explico adiante). A questão é que eu não conseguir engolir aquela comparação e curiosamente fui ler a dita obra. Entendam que na época o livro começava a ter mais sucesso, havia especulações de que a série seria adaptada para a televisão, então os holofotes já se voltavam para os livros que começaram a serem publicados em 1996!

Então me pus a ver o que tinha de tão bom nesse livro. E foi desafiador e bem demorado!

O primeiro volume A guerra dos tronos, eu li rapidamente e, de certa forma, me empolguei bastante com a narrativa que o autor empregou, com os personagens problemáticos e diferentes, o mundo sobrenatural ao lado das questões políticas de uma terra medieval fictícia e sobrenatural, além daquele final surpreende e longe dos lugares comuns dos livros nossos de cada dia. Entretanto, aquilo tudo ainda não tinha me empolgado. Explico, porque vocês vão entender o motivo da minha brusca mudança: Eu já tinha começado a leitura com aquele gosto amargo de “alguém ousa dizer que George R. R. Martin é melhor que Tolkin”, ou seja, eu estava bastante chateada com aquela comparação feita por algum idiota da Veja online, pois eles não eram os únicos nisso, então cheia de preconceito continuei minha leitura e fui ao segundo volume da saga “A Fúria dos Reis” e ali um vislumbre do que eu acharia daquela série começou a aparecer.

No entanto, por N razões, não prosseguir minha jornada, sobretudo por quer hoje, humildemente, venho reconhecer que As crônicas de Gelo e Fogo é um livro bastante complexo e isso é o que faz tão incrível e tão fascinante.

Há diversos post que digo o quanto a atual literatura está fraca, obviamente voltada para um público que apenas consome e consume cada vez mais, sem ao menos se preocupar com a qualidade do que se tem em mãos. Nisso, a grande e esmagadora parte dos livros que li nos últimos anos são daquele que podem ter 500 páginas, mas que em um dia eu os leio como se fosse um gibi. E não falo apenas dos meus romances água com açúcar não, é ficção científica, é terror, é mistério, suspense, ação e fantasia, de tudo um pouco, digo que são leituras fáceis.

Com As Crônicas foi diferente. Depois de dois livros seguidos, em uma leitura continua e sem intervalos, minha cabeça e mente estavam doendo e girando respectivamente. Não estava acostumada com o enredo de mil e um personagens, tantos pontos de vista, com tanta história, tanta emoção e moralidade escritos. Martin escreveu algo que não se pode ser lido em apenas um folego, como sempre faço, não, nesse caso a leitura deve ser feita de forma extensiva, cuidadosa, onde nós mesmos vamos criando nossas linhas narrativas, nossos personagens e nossas teorias.

Assim, tive que dá uma pausa, estava no auge de provas na faculdade e envolvida com outras atividades e, quase três anos após meu primeiro contato com o a série, já quase me esquecendo do que ela representou no início, voltei meus olhos para ele novamente. Comprei logo o box com os cinco volumes lançados e mergulhei de cabeça no mundo de Westeros. Novamente, comecei minha leitura do início e apesar do meu folego retomado, quase cai na mesma armadilha que querer ler tudo de uma vez só, dessa vez me controlei melhor, mas o que não quer dizer que não virei noites com eles, ou que lia tanto que minha cabeça doía, sim, essas coisas continuaram a acontecer, mas fui até o fim e já estou triste.

Isso por quer já estou com saudades dos personagens, eles são bons, muitos bons. Jon, Cercei, Sor Barristen, Hodor, Bran, Brienne, Jaime, Theon, Joffrey, Daenerys, Davos, Arya, Gendry, Sam, Tyrion, Missandei, Stannis, Asha, Catelyn, Arys, Aegon, Sansa, Jojen, Totarmund, Robb, Renly, Sor Jorar Mormont, Meistre Pycelle, Varys, Lord Cunningan, Merreca, Melisandre, Varamyr Seis-peles, Verme Cinzento, Rickon, Mance Ryder, Tommen, Loras, Fantasma, Meera, Lorde Bolton, Tisha, Meistre Aemon, Corvo de um olho…. Tantos…. aqueles que amamos, aqueles que odiamos e aqueles que não sabemos o que sentimos.

E nos personagens temos uma grande e satisfatória construção de Martin: não há dois lados da moeda na história como dá a entender o título Fogo e Gelo, que incorporam o bem e o mal, mas há, entretanto, tantos pontos de vista que no decorrer da leitura você se depara com situações incomuns aos mocinhos e heróis que costumamos amar.

São dilemas morais e que me fazem perguntar o que faria se tivesse na mesma situação. Sansa, Jaime e Tyrion são meus maiores exemplos. Mas além disso, Martin merece todo meu respeito por misturar de forma tão harmoniosa todos os maiores temas da literatura de ficção clássica: cavaleiros e heróis, guerra, reis e suas dinastias, estórias de religiões, dragões e outros animais fantásticos, magia, política, dilemas morais como já mencionei e por fim, meu preferido, romance….

….tão pouco, eu sei. Mas ai mora um dos meus maiores problemas na saga de Gelo e Fogo: EU ADORO ROMANCES!

Sério, em se tratando de romance eu consigo imaginar uma comovente e linda estória de amor só em ver duas formiguinhas juntas, então imaginem como me sinto ao me deparar com toda essa áurea não piedosa de Martin com seus personagens?  Matando a torto e a direita qualquer um dos personagens, sendo principal ou não?

Então eu realmente sofri com Jon e Ygritti, e continuo a tecer vãs esperanças com Jaime e Brienne (eu adoro a Brienne, apesar de ter sentimentos confusos em relação a Jaime), Arya e Gendry (eu realmente, realmente, realmente, torço para que o autor resolva destino unir eles de novo) e até por Tyrion fique com Merreca, ele já sofreu bastante no amor e ela é uma gracinha! (eu disse que era viciada em romances água com açúcar :p)

Outra coisa que me fazia segurar a leitura da obra é saber que ela está longe do fim. Eu fico muito ansiosa quando não acabo algo que começo, sobretudo quando se trata de livros. Mas como eu não ia ficar aguardando mais 5, 7, talvez 10 anos, para que o sétimo livro fosse lançado comecei mesmo assim, me treinando mentalmente para no fim do quinto volume eu não ficasse doente de ansiedade, isso me ajudou mentira, já estou na maioria dos fóruns sobre o tema e lendo mil e uma teorias de como será o fim e lendo fanfics sem fim—triste vida.

Enfim, aqui estou e voltando ao que comecei a falar no início do post, continuo achando um abuso a comparação com O Senhor dos Anéis, tal como a comparação que fazem deste com As Crônicas de Nárnia, é que não dá dois universos tão diferentes e tão bem escritos, pensados, complexos que essas obras traduzem. Por agora, não ouso dizer que George Martin entrou na galeria desses grandes nomes da literatura fantástica (não falo isso nem de Harry Potter!), como disse, vivemos em uma época tão consumista, rápida que eu acho difícil dizer se o que faz sucesso hoje, o fará daqui a 50 anos.

Agora, com relação as crônicas o que me resta é aguardar Os Ventos do Inverno e acompanhar Game of Thronos, que é uma série muito bem feita e com atores fantásticos, além de cenários e efeitos especiais dignos de cinema!

De qualquer forma, lembrando do meu antigo preconceito com o livro, é tão bom ter mudado de opinião!

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